Viaje Mais 302

revistaviajemais www.revistaviajemais.com.br No 302 Ano 26 R$ 34,90 EDITORA EUROPA MAIS VIAJE ÁFRICA DO SUL VINHOS, PINGUINS E MUITO CONFORTO NA CIDADE DO CABO EUA EM ALTO ASTRAL NA CAROLINA DO SUL ANGUILLA CARIBE SECRETO DAS CELEBRIDADES GUIA COMPLETO DA ILHABELA MEDITERRÂNEO • BARCELONA • MARSELHA • PISA • FLORENÇA • PALERMO • MALTA Destinos Ilhabela • Anguilla • Cidade do Cabo • Charleston • Columbia • Greenville • Barcelona • Marselha • Palermo • Pisa • Florença • Malta UM ROTEIRO REPLETO DE HISTÓRIA, CULTURA E PRAZER DA NAVEGAÇÃO UM CRUZEIRO PELO MSC Splendida atracado em Malta

4 | VIAJEMAIS Paulo Basso Jr VOCÊ TAMBÉM ENCONTRA AS EDIÇÕES DA REVISTA VIAJE MAIS NAS PLATAFORMAS DIGITAIS: Euroclube • Tim Banca • Claro Banca Oi Revistas • Clube de Revistas • Bancah Uol Banca • Zinio • Nuvem do Jornaleiro Revistarias • Mais Banca • Magzter • Ubook Bookplay• Amazon Prime • Pressreader CRUZEIRISTAS DA REDAÇÃO Aida Lima, Roberto Araújo, Tales Azzi e Jeff Silva. Colaborou nesta edição: Paulo Basso Jr. BODEGA EDITORA EUROPA Anderson Cleiton, Anderson Ribeiro, Angela Taddeo, Beth Macedo, Elisangela Xavier, Fabiana Lopes, Fabiano Veiga, Jeff Silva, Laura Aguirre, Laura Araújo, Lourival Batista, Luiz Siqueira, Maitê Marques, Marco Clivati, Mauricio Dias, Paula Hanne, Paula Orlandini, Renata Kurosaki, Tania Roriz e Valerio Romahn NOSSO E-MAIL revistaviajemais@europanet.com.br ANUNCIE publicidade@europanet.com.br A REVISTA VIAJE MAIS é uma publicação da EDITORA EUROPA Ltda. (ISSN 1519-3268). Cruzeiro no Mediterrâneo............. 12 Cidade do Cabo ............................... 40 Anguilla ...............................................50 Carolina do Sul ................................ 64 Ilhabela ............................................. 80 Cruzeiro no Mediterrâneo JANELA PARA O MEDITERRÂNEO Avantagem é irresistível: você desfaz a mala uma única vez e, mesmo assim, acorda todos os dias em um lugar diferente. É isso que acontece no cruzeiro pelo Mediterrâneo a bordo do MSC Splendida. Em sete noites, dá para sair de Barcelona, navegar por uma das regiões mais fascinantes do mundo e conhecer lugares que guardam histórias de fenícios, gregos, romanos… Basta fechar a cortina da cabine à noite. De manhã, ao abri-la, uma cidade fabulosa surge diante da sua varanda, e muitas outras estão nos arredores para curtir também. Marselha, Livorno, Pisa, Florença, Cagliari, Palermo e Valetta (essa última na belíssima Malta) estão no roteiro dessa grande viagem na qual nosso repórter Roberto Araújo, um cruzeirista experiente, embarcou para contar tudo em detalhes na reportagem de capa desta edição. E o relato do Roberto inclui, é claro, as atrações do MSC Splendida, parte importante da viagem. O navio tem restaurantes, bares, piscinas, teatro, spa, cassino e muitos cantinhos para curtir as paisagens do caminho. Em um cruzeiro como esse você pode conhecer muitos destinos em uma única viagem, com vantagem do conforto, da boa comida e da sensação deliciosa de que, enquanto você dorme, o próximo capítulo das suas férias está chegando pelo mar. Tales Azzi - Editor @revistaviajemais VIAJEMAIS revistaviajemais www.revistaviajemais.com.br |SUMÁRIO| EDIÇÃO 302 | JULHO 2026 Paulo Basso Jr Roberto Araújo PARA ASSINAR E COMPRAR ÓTIMOS LIVROS, REVISTAS, COLEÇÕES E ENCICLOPÉDIAS Ligue para (11) 3038-5050 / (11) 95186-4134 www.europanet.com.br atendimento@europanet.com.br SEDE Rua Alvarenga, 1.416 São Paulo - SP CEP: 05509-003 IMPRESSÃO Coan Indústria Gráfica Ltda. EDITORA EUROPA Fundada por Aydano Roriz Publicando livros e revistas desde 1986 w Cidade do Cabo Anguilla Roberto Araújo Carolina do Sul

6 | VIAJEMAIS O parque aquático da Norwegian no Caribe O Great Tide Waterpark será a nova atração da Great Stirrup Cay, a ilha privativa da Norwegian nas Bahamas |MUNDO DOS CRUZEIROS| A Great Life Lagoon é uma piscina com estilo praia com bares aquáticos e muitas áreas de descanso As cabanas privativas poderão ser reservadas e terão acesso ao parque aquático de corpo e o Rapid Mat Racers, dois toboáguas de tapete. Ao todo, o Great Tides Waterpark terá 19 toboáguas, incluindo o Wandering River, com mais de 243 metros, uma versão cheia de energia do clássico rio lento, além de atrações para crianças pequenas no Splash Cay, área infantil de 836 m². A novidade se soma à transformação recente de Great Stirrup Cay, que ganhou a Great Life Lagoon, com entrada em estilo praia, bares aquáticos e áreas de descanso com vista para o mar. Os hóspedes também poderão reservar cabanas privativas para até seis pessoas, com acesso ao parque incluído, além de aproveitar três novos food trucks. Os passes estarão disponíveis para hóspedes com cruzeiros para Great Stirrup Cay a partir de 4 de setembro de 2026. A ilha integra roteiros da Norwegian durante todo o ano, com saídas de Nova York, Filadélfia, Miami, Tampa, Jacksonville e Port Canaveral. Fotos: Divulgação O Great Tides Waterpark será a grande novidade da ilha privativa da Norwegian nas Bahamas, com 19 toboáguas e atrações para diferentes idades A Norwegian Cruise Line vai inaugurar em setembro um novo parque aquático, o Great Tide Waterpark, na ilha privativa da companhia nas Bahamas, a Great Tides Waterpark. A estreia acontecerá durante o cruzeiro de sete noites pelo Caribe do Norwegian Luna, com saída de Miami em 29 de agosto de 2026. Com cerca de 24 mil m², o novo parque foi pensado para transformar um dia de parada dos cruzeiros pelo Caribe em uma experiência bem divertida para famílias. No centro do parque está a Tidal Tower, torre de 52 metros que reunirá atrações radicais, entre elas os Breakwater Blasters, uma espécie de montanha-russa aquática com descidas em boia. Já o Whitewater Dash tem dois toboáguas

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8 | VIAJEMAIS Área de lazer retrátil na popa do navio (acima) e uma das 54 suítes com vista para o mar (abaixo) O Corinthian tem ambientes elegantes com madeira e mármore: cruzeiros prometem luxo mas sem agito As viagens de luxo no maior veleiro do mundo Orient Express, companhia lendária pelos trens de luxo, estreia no mundo dos cruzeiros com o Corinthian, um veleiro de 220 metros e 54 suítes O Corinthian tem estilo retrô, resgata o glamour das grandes viagens do início do século 20 e fará roteiros de 2 a 14 noites pelo Mediterrâneo e Caribe A Orient Express, consagrada por seus trens de luxo, resolveu explorar os sete mares e lançou o Corinthian, em Saint-Nazaire, na França, embarcação que marca a entrada da companhia no universo dos iates de luxo. Com 220 metros de comprimento, bandeira francesa, a embarcação foi apresentada como o maior veleiro do mundo. Esqueça, porém, a ideia de cruzeiro convencional, com festas e buffets. O Corinthian tem apenas 54 suítes, todas com vista para o mar, e traz uma proposta de viagem com o refinamento que se tornou símbolo da marca Orient Express. O navio tem um estilo retrô que resgata a atmosfera das grandes viagens do início do século 20. O projeto de interiores é do arquiteto francês Maxime d’Angeac que caprichou nos ambientes com madeira, mármore e grandes janelas para entrada de luz natural. Na gastronomia, os cardápios são assinados pelo chef francês Yannick Alléno, premiado com estrelas Michelin. Já o spa tem a chancela da marca Guerlain. Os roteiros do Corinthian vão desde escapadas rápidas de duas ou três noites a roteiros de oito a 14 noites. No Mediterrâneo, há opções curtas, de apenas duas noites entre Saint-Tropez e Marselha, na França; ou por pontos icônicos da Itália, como Portofino, Capri e Porto Cervo. Para quem quer ir além, o calendário traz jornadas mais longas, como Riviera Francesa e Provença, com oito noites, passando por Monte Carlo, Cannes, Saint-Tropez e Marselha. Outro roteiro leva para a Costa Amalfitana e Sicília, com paradas em Roma, Nápoles, Capri, Amalfi, Taormina, Siracusa e Valletta. A experiência mais emblemática é a travessia transatlântica de 14 noites entre Lisboa e Barbados, uma viagem de navegação do Mediterrâneo ao Caribe. O lançamento do Orient Express Corinthian reforça a tendência do crescimento dos cruzeiros de luxo em embarcações menores e mais exclusivas, com serviço personalizado, gastronomia autoral e roteiros pensados para um público de alto padrão, que gosta do mar mas não de multidão. Mais informações: www.orient-express.com/en/sailing-yachts Fotos: Divulgação

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12 | VIAJEMAIS |MSC SPLENDIDA| Barcelona, Marselha, Pisa, Florença, Cagliari, Palermo e Malta em uma viagem de sete dias que combina história, cultura e o prazer da navegação UM CRUZEIRO NO MSC SPLENDIDA POR ROBERTO ARAÚJO | TEXTO E FOTOS O MSC Splendida em Malta. Um roteiro de sete noites pelo Mediterrâneo, entre cidades históricas, monumentos célebres e paisagens inesquecíveis, com partida e chegada em Barcelona PELO CORAÇÃO DO MEDITERRÂNEO

VIAJEMAIS | 13 É um privilégio que parece mágica. Durante sete manhãs, bastou abrir a cortina da cabine para descobrir uma cidade diferente do Mediterrâneo diante dos meus olhos. Sem desfazer malas, enfrentar aeroportos ou trocar de hotel. De um dia para outro, surgiram o casario antigo de Marselha junto ao porto, os telhados dourados da Toscana ao longe, as paisagens ensolaradas de Cagliari, todos os encantos da ilha de Palermo ou ainda a muralha monumental de Malta, ali a poucos metros enquanto o navio navegava rumo ao porto. Entre a cortina que se fecha antes do sono em um destino e a que se abre em uma cidade ainda mais impressionante, existe o prazer de viver um navio como o MSC Splendida. Restaurantes, bares, massagens no spa, piscinas, jacuzzis e longos momentos apenas observando o mar. Pude respirar o ar salgado, ouvir o som contínuo das ondas e assistir a pores do sol cinematográficos que fazem valer cada minuto. Nesse que fiz, em sete incríveis dias, fiquei com a certeza de que o Mediterrâneo condensa diante dos olhos toda a memória de antigas civilizações — e também a sabedoria de quem aprendeu a aproveitar o melhor da vida. Talvez porque exista a consciência de que tudo é passageiro. De que aquele momento jamais se repetirá. É justamente a exclusividade do instante, a certeza de sua natureza efêmera, que intensifica a emoção e grava a experiência na memória. Ao acordar, abrir as cortinas e contemplar o mar, começa um novo episódio em que você — e quem está ao seu lado — deixa de ser espectador para se tornar protagonista de um dia que será lembrado por muitos anos. Do cruzeiro que viveu intensamente pelo Mediterrâneo. Um privilégio, certamente.

14 | VIAJEMAIS Novo terminal exclusivo da MSC em Barcelona: são 11.500 m² de conforto, eficiência e rapidez no embarque Logo na entrada do terminal, uma colorida obra do pernambucano Romero Britto dá as boas-vindas aos viajantes Este é um navio que vale conhecer. Mesmo que você não faça este cruzeiro pelo Mediterrâneo, terá a oportunidade de embarcar na Grand Voyage quando o MSC Splendida sair de Barcelona, no dia 15 de novembro, para cruzar o Atlântico e chegar ao Rio de Janeiro em 24 de novembro, iniciando a temporada brasileira. Sim, ele virá ao Brasil e, a | MSC SPLENDIDA MSC SPLENDIDA UM DESTINO CHAMADO partir do Rio de Janeiro, seguirá para o Uruguai e a Argentina, com algumas deliciosas paradas pelo caminho. Nosso primeiro encontro foi no porto de Barcelona, mais exatamente no novo terminal exclusivo que a MSC construiu no local. Está novinho — foi inaugurado em 2025 — e faz parte da expansão da companhia, que já possui terminais exclusivos também em Miami, nos Estados Unidos, e em Durban, na África do Sul. O Terminal de Cruzeiros da MSC em Barcelona, já visto de longe, impressiona pelo azul profundo do revestimento externo que faz referência à tradição artística da cidade e ao universo de Gaudí. Foi descer do transfer, deixar as malas, passar pela rápida inspeção de segurança e contemplar uma bela e enorme escultura do brasileiro Romero Britto logo na entrada. O terminal é enorme, com cerca de 11.500 m² de área interna. Há uma loja e muitos sofás confortáveis para quem precisar esperar um pouco, o que não foi o caso. Existe ainda uma sala Entre restaurantes, espetáculos, piscinas e o azul do Mediterrâneo, a vida a bordo torna-se parte da viagem

VIAJEMAIS | 15 Entre os diferentes tipos de cabine, a varanda oferece um privilégio singular: acompanhar de perto a chegada a cada novo destino do roteiro VIP exclusiva para hóspedes do Explora Journeys e do MSC Yacht Club. Depois do check-in, bastou caminhar pelas pontes de acesso para entrar no MSC Splendida. Visto dali de fora, o navio impressiona ainda mais: são 333,03 metros de comprimento, 18 andares e 1.637 cabines, das quais 43 são adaptadas para hóspedes com necessidades especiais ou mobilidade reduzida. Ao todo, acomoda até 4.363 passageiros, sem contar os cerca de 1.370 tripulantes. Mas teremos tempo para conhecer tudo o que ele oferece em gastronomia, lazer e entretenimento. UM BRINDE AO QUE VIRÁ Primeiro é localizar a cabine. Pendurado na porta está o cartão que funciona como chave e como tudo o que você precisa para qualquer atividade no navio, desde bebidas e compras até o lugar reservado no restaurante. Dentro da cabine me esperavam alguns agrados: uma garrafa de espumante por fazer parte do MSC Voyagers Club, uma cesta de frutas e um prato do doce francês macaron. Para minha surpresa, havia ainda uma segunda garrafa de espumante, mais um prato de macarons e um squeeze personalizado da 6ª Convenção Internacional de Vendas organizada pela MSC Cruzeiros Brasil, que reuniu 700 agentes de viagem e transformou o MSC Splendida em um verdadeiro navio brasileiro. Degustando meus agradinhos, reservei alguns minutos na varanda, pensando no muito que desfilaria diante daquela vista nos dias seguintes. Espumante gelado, macarons, vista para o mar e sete dias de descobertas. Assim começou a viagem Agora, no embarque, o cartão do navio fica na porta da cabine esperando o hóspede. Ele funciona como chave, documento de identificação e meio de pagamento durante toda a viagem

16 | VIAJEMAIS | MSC SPLENDIDA Para conter um pouco a ansiedade, fui encontrar os amigos de viagem, tomar uma cerveja e comer alguma coisa. No Bora Bora Buffet, com seus 412 lugares distribuídos em uma área de 1.288 metros quadrados, havia de tudo à escolha. E este é apenas um dos seis restaurantes. Quantos bares? Nada menos que dez nas áreas internas e três nas áreas externas. Não há chance de passar fome ou sede. Até por hábito, já que sou cruzeirista veterano, fui conferir as piscinas e jacuzzis da área externa. As cinco estavam lá. Como a temperatura estava um pouco baixa, a mais movimentada era a piscina com teto retrátil, onde o ambiente é mantido aquecido para evitar qualquer desconforto e permitir biquínis e sungas mesmo em dias mais frescos. Há ainda uma piscina exclusiva para crianças e outra reservada aos hóspedes do MSC Yacht Club. Conferi também as 12 hidromassagens distribuídas pelo navio, nas quais grupos de amigos conversavam animadamente. Vou ser bem sincero e fazer um daqueles momentos em que a imprensa conta suas dificuldades. É que agora preciso falar dos restaurantes do navio e nem sei por onde começar. Ah... já sei: vou começar pelo meu favorito, o Butcher’s Cut, um restaurante de especialidade, normalmente pago à parte, que dá um verdadeiro show no preparo de carnes nobres. Fui duas vezes. Uma por fazer parte do MSC Voyagers Club, na categoria Diamond, que dá direito a uma refeição cortesia com um acompanhante da mesma cabine. A outra foi em uma celebração com os colegas da imprensa. Vivi também saborosos momentos no Villa Verde, o restaurante principal onde aconteciam os jantares. A sucessão de pratos disponíveis no Esta é uma das entradas num jantar no Butcher’s Cut. Imagine o prato principal... O MSC Splendida tem 12 hidromassagens distribuídas por todo o navio. A vista de algumas delas é de tirar o fôlego O MSC Splendida tem cinco piscinas para diferentes perfis de viajantes, incluindo espaços exclusivos para crianças e para os hóspedes do MSC Yacht Club

VIAJEMAIS | 17 Novo restaurante exclusivo do MSC Yacht Club. Mais uma opção gastronômica reservada aos hóspedes da categoria mais sofisticada do MSC Splendida Uma das tradições dos cruzeiros: cada hóspede possui um lugar reservado para o jantar. E sempre tem um garçom que fala português A piscina com teto retrátil mantém a temperatura agradável e permite momentos de lazer independentemente das condições do tempo lá fora

18 | VIAJEMAIS | MSC SPLENDIDA Teatro, balada, spa, piscinas, cassino, bares e restaurantes fazem do MSC Splendida um destino tão atraente quanto suas escalas São 13 bares e lounges entre cafeterias, piano bar, jazz bar, ou bares das piscinas cardápio fazia a felicidade da mesa. Na verdade, tudo começava com alguns drinks antes do jantar. Depois vinham os queijos, as entradas — que chegaram a incluir lagosta —, os pratos principais e, por fim, as sobremesas. Nenhum problema se você quiser duas entradas ou duas sobremesas. E em que língua falar com o garçom? Pode ser em português mesmo, porque logo aparece alguém que entende. Aliás, muitos tripulantes até preferem que você fale português com eles. Vir à temporada brasileira é o sonho de muitos porque consideram o Brasil um destino fascinante. Assim, aproveitam qualquer oportunidade para praticar a língua e conversar com um sorriso no rosto. Que mais? Ah, o teatro, é claro. No MSC Splendida ele é enorme: são nada menos que 1.603 lugares distribuídos em dois níveis e 2.086 metros quadrados. De lojas então, nem se fala. Em alto-mar não há impostos sobre diversos produtos e perfumes, joias, roupas, cosméticos e presentes para as crianças disputam a atenção dos passageiros. Uma dica: no último dia do cruzeiro costuma haver uma espécie de liquidação, com bolsas Valentino e outros produtos por preços bastante atrativos. Achou que eu ia esquecer das icônicas escadas Swarovski? Claro que não. Todo mundo precisa fazer uma foto nelas. Estão no átrio central e são famosas pelo alto custo de construção. Cada degrau possui muitos milhares de cristais incrustados, e estima-se que o valor de cada escadaria ultrapasse os 90 mil euros. Depois de dias tão especiais, boa comida e boa bebida, ir dormir chega a parecer desperdício. Simbora para a balada então. No MSC Splendida ela acontece no 16º andar, em um espaço que até certo horário funciona como o restaurante Hot Pot, com culinária oriental. Mais tarde, as mesas são afastadas, as luzes mudam, o DJ assume seu posto e a festa invade a madrugada. Tem mais, viu? Só vou parar por aqui porque preciso falar das excursões. Você retorna feliz para a cabine depois de um dia deliciosamente vivido, toma um último drink observando o mar, se prepara no confortável banheiro, fecha as cortinas e se entrega aos sonhos. Na manhã seguinte, quando abre a cortina, adivinha? Estará diante de uma cidade sensacional. Marselha, por exemplo, a charmosa cidade francesa que emprestou seu nome ao hino nacional da França, La Marseillaise. Toda noite teve balada e são frequentes as aulas de dança para diferentes ritmos Fique atento às promoções nas lojas do navio. Verdadeiras pechinchas aparecem

VIAJEMAIS | 19 Revestidas com milhares de cristais Swarovski, as escadas do átrio central estão entre os detalhes mais fotografados do MSC Splendida. Ninguém resiste

20 | VIAJEMAIS | MSC SPLENDIDA Quando abri as cortinas naquela manhã e saí na varanda da minha cabine no MSC Splendida, lá estava ela: a enorme placa escrita “Marseille”, na grafia local e um tanto desalinhada. Eram exatamente 7h34 quando gravei um vídeo da aproximação. Existe algo de muito forte em chegar a Marselha pelo mar. A cidade parece ter sido feita exatamente para esse tipo de entrada. Era a primeira parada do navio e eu refletia sobre a importância do Mediterrâneo na história da humanidade. Foram por aquelas águas que eu começava a cruzar que circularam fenícios, gregos, romanos, egípcios, árabes, venezianos, otomanos e inúmeros outros povos que trocaram mercadorias, crenças, idiomas, técnicas de navegação, alimentos, ideias filosóficas e conhecimentos científicos. Foi ali que marinheiros gregos fundaram Massalia há cerca de 2.600 anos. Como aconteceria durante o restante da viagem, segui em uma das excursões organizadas pelo próprio navio. Não há nada mais prático, até porque sempre há um guia para ajudar a compreender o significado dos locais visitados. O lugar que mais me marcou em Marselha foi mesmo Notre-Dame de la Garde. Desde o navio, ainda durante a chegada ao porto, eu já observava a basílica no alto da colina. NotreDame de la Garde é conhecida como a protetora dos navegantes, uma ajuda que mal não faz para quem ama cruzeiros. Durante séculos, marinheiros e pescadores entraram naquela igreja antes de partir para o mar. Outros tantos voltaram apenas para agradecer por terem sobrevivido a tempestades, guerras e naufrágios. Isso fica muito evidente no interior da basílica. Pequenos barcos pendurados no teto, placas de agradecimento, pinturas e objetos deixados por famílias e navegadores formam uma espécie de memória emocional coletiva do Mediterrâneo. É tocante. Lá do terraço, a vista é simplesmente arrebatadora. O Porto Velho, o Mediterrâneo, as ilhas próximas, os bairros espalhados pelas colinas e até o Stade Vélodrome podem ser Bastou abrir as cortinas para encontrar a enorme placa de Marseille dando as boas-vindas à primeira escala da viagem Conhecida como a protetora dos navegantes, Notre-Dame de la Garde também oferece um dos panoramas mais impressionantes de Marselha MARSELHA PORTA DO MEDITERRÂNEO Entre fortalezas, igrejas e vielas históricas, a mais antiga cidade da França revela sua eterna ligação com o mar

VIAJEMAIS | 21 Entre barcos e iates, o Porto Velho preserva a vocação marítima de Marselha sob o olhar permanente de Notre-Dame de la Garde vistos à distância. O estádio, casa do Olympique de Marseille, surge com seu teto ondulado dominando parte da paisagem urbana. LABIRINTO MEDITERRÂNEO A próxima parada foi o Vieux-Port, o Porto Velho, coração histórico da cidade desde a Antiguidade. A paisagem é dominada pela Cathédrale de la Major. Gigantesca, com suas faixas alternadas de pedra clara e verde, ela parece uma construção saída de Constantinopla e não exatamente da França. Dali, seguir para o bairro de Le Panier é quase obrigatório. O mais antigo de Marselha parece um labirinto mediterrâneo de ruas estreitas, pequenas escadarias, roupas penduradas nas janelas e fachadas coloridas castigadas pelo tempo. Há grafites, ateliês de artistas, lojinhas, pequenos cafés e uma atmosfera que lembra certas cidades italianas do sul. No fim da tarde, voltei ao MSC Splendida feliz em dizer que havia conhecido mais uma linda cidade francesa. Não uma qualquer, mas a única que emprestou seu nome ao combativo hino nacional da França, La Marseillaise. Diverti-me fotografando o voo das gaivotas que acompanhavam a partida do navio enquanto a cidade ia ficando ao longe. Para me recuperar de um dia tão agradável e começar a experimentar as delícias do navio, nada melhor que uma massagem no MSC Aurea Spa, no 14º andar. Depois vieram um show no teatro, o jantar com os amigos e, por fim, o momento de fechar as cortinas, curioso para descobrir o que me esperava quando um novo porto surgisse diante da varanda. O próximo seria Livorno. Há 2.600 anos, Marselha recebe viajantes vindos pelo Mediterrâneo La Bonne Mère (A Boa Mãe), Notre-Dame de la Garde protege há séculos marinheiros, pescadores e viajantes A Cathédrale de la Major marca a entrada do centro histórico de Marselha. Ao redor dela, ruas antigas conduzem ao charmoso bairro de Le Panier, um dos mais interessantes da cidade

22 | VIAJEMAIS Cada um inventa uma pose diferente para a Torre. A minha usou chapéu | MSC SPLENDIDA Paulistano que sou, a primeira associação que faço ao ouvir a palavra Livorno é uma pizzaria. Mas não. Quando abri as cortinas, lá estava a cidade italiana que inspirou tantos pizzaiolos (ou pizzaioli, como certamente preferem os italianos). Da cidade de Livorno em si, porém, pouco vi. Apenas passamos por ela. O dia começou pouco depois das sete da manhã, e a primeira parada do ônibus foi em Pisa que, não, apesar da divertida semelhança sonora, não tem qualquer relação etimológica conhecida com pizza. O que existe lá é um dos monumentos mais famosos do planeta: a Torre de Pisa. Talvez seja o erro mais bem-sucedido da história da arquitetura. A torre começou a inclinar ainda durante a construção, no século XII, devido ao solo instável e à fundação rasa. O que poderia ter sido um desastre de engenharia acabou se transformando em um dos ícones mais reconhecíveis da humanidade. TOSCANA UM DIA NA Das poses diante da Torre de Pisa aos passeios pelas ruas de Florença, um dia cercado por séculos de beleza e cultura A verdade é que o cérebro custa a aceitar aquela inclinação tão acentuada, embora o campanário permaneça de pé há mais de 800 anos. É um verdadeiro espetáculo observar pessoas do mundo inteiro fazendo poses para “segurar a torre”. Como gosto de usar chapéu, minha ideia foi simular colocá-lo sobre o topo inclinado. Mas a atração é basicamente essa mesmo. Tira-se a foto, admira-se a inclinação, compra-se o ímã de geladeira e pronto. Hora de voltar ao ônibus e seguir em frente. Ao contrário dos colegas que aproveitaram a viagem até Florença para uma soneca, preferi sentar no primeiro assento e apreciar a paisagem da Toscana. Apaixonado pela Natureza como sou, não perderia essa oportunidade. Ao chegar, para minha felicidade, o ônibus parou perto do Giardino delle Rose, logo abaixo do Piazzale Michelangelo. Aproveitei para fazer uma rápida reportagem para a revista Natureza, O porto de Livorno é a porta de entrada para duas das cidades mais visitadas da Toscana: Pisa e Florença

VIAJEMAIS | 23 Dependendo do ângulo, a Torre de Pisa parece inclinar-se para lados diferentes. O cérebro custa a acreditar no que vê

24 | VIAJEMAIS | MSC SPLENDIDA da qual também sou editor, e fiquei encantado com as roseiras, as esculturas do artista belga Jean-Michel Folon e a vista panorâmica da cidade. Não sei se você concorda, mas Florença possui um dos skylines mais bonitos do mundo. Talvez seja também o melhor lugar para ter contato com o Renascimento. Fundada pelos romanos em 59 a.C., a cidade viveu seu auge entre os séculos XIV e XVI. Sob a influência da poderosa família Médici, em um verdadeiro laboratório de arte, ciência, arquitetura e pensamento humanista, reunindo nomes como Michelangelo, Leonardo da Vinci, Botticelli, Brunelleschi, Dante e Galileu. É daquelas cidades em que o melhor a fazer é deixar as pernas conduzirem o passeio, porque em toda parte existem arte, cultura, história e as marcas dos gênios que ali viveram. Basta seguir caminhando: a Catedral de Santa Maria del Fiore, com sua gigantesca cúpula dominando a paisagem; o Campanário de Giotto; a Piazza della Signoria; o Palazzo Vecchio; a Ponte Vecchio atravessando o Arno como faz há séculos, primeiro ocupada por açougueiros e hoje dedicada ao comércio de joias e ouro. Em outra viagem, Florença foi a base onde Shirley, minha mulher, e eu passamos quinze dias. Conhecemos cada um desses monumentos com calma e ainda percorremos boa parte da região. Em apenas um dia, não dá para repetir a experiência. Mas, no ônibus de volta a Livorno, novamente sem cochilar, fiquei observando pela Roberto Araújo A Ponte Vecchio atravessa o rio Arno há mais de seis séculos. Hoje abriga joalherias; no passado, era ocupada por açougueiros Em Florença, a arte não se limita aos palácios e museus. Ela se revela até na base de um simples poste de iluminação

VIAJEMAIS | 25 Nenhuma visita a Florença está completa sem encontrar Davi. A obra-prima de Michelangelo tornou-se um dos maiores símbolos do Renascimento O skyline de Florença está entre os mais belos do mundo. E pensar que dá para chegar perto dessa linda cidade de navio janela as paisagens da Toscana se sucederem enquanto pensava que jamais imaginei retornar a Florença chegando de navio. Um cruzeiro, definitivamente, pode ser muito mais inspirador do que imaginar apenas os atrativos internos da embarcação. Que, aliás, naquela noite esteve esplêndida — com duplo sentido mesmo. Jantei no Butcher’s Cut, onde comecei com ostras gratinadas à Rockefeller e depois provei divinas costeletas de cordeiro. Horas mais tarde, novamente na cabine do MSC Splendida, fechei as cortinas sabendo que o Mediterrâneo preparava mais um daqueles despertares mágicos. Na manhã seguinte, outro porto, outra cidade e outro capítulo surgiriam diante do mar. Seria a vez de Cagliari, na Sardenha.

26 | VIAJEMAIS A imagem era muito poderosa: uma pessoa sentada no escritório pensando numa praia à direita e, à esquerda, a mesma pessoa na praia dos seus sonhos pensando no escritório. E a pergunta da palestrante Lígia Costa: você está realmente aqui? A palestra, que deu muito o que pensar, encerrou o primeiro dia da 6ª Convenção Internacional de Vendas da MSC Cruzeiros Brasil. Pouco antes, moderado por André Coutinho, o bate-papo reuniu Adrian Ursilli, diretor-geral da MSC Cruzeiros Brasil e também responsável pela marca de cruzeiros de luxo do grupo, a Explora Journeys; Eduardo Simões, diretor de Marketing e Comunicações; e Ignacio Palacios Hidalgo, diretor Comercial e de Vendas. O encontro fez um balanço da última temporada e revelou os planos da empresa para uma plateia de mais de 700 agentes de viagem que participavam da convenção. Depois do almoço, era hora de conhecer Cagliari. Confesso que, assim que recebi o roteiro da viagem, precisei olhar no mapa para descobrir onde ficava. Quando abri as cortinas naquela manhã e vi o MSC Splendida atracado em Cagliari, tive de admitir uma coisa: antes daquela viagem, eu mal sabia exatamente onde ficava a Sardenha. | MSC SPLENDIDA UMA SURPRESA CHAMADA CAGLIARI Entre influências italianas, espanholas e norte-africanas, a capital da Sardenha revela uma personalidade única no Mediterrâneo “Você está realmente aqui?” A provocação da palestrante Lígia Costa encerrou o primeiro dia da 6ª Convenção Internacional de Vendas e ficou ecoando viagem afora Primeiro, Cagliari surgiu diante do convés do MSC Splendida. Depois, do mirante do Bastione di Saint Remy, foi a vez de ver o navio ancorado no porto Bem, ela fica na grande ilha italiana da Sardenha, entre a península da Itália, a Córsega e o norte da África. E essa posição explica muita coisa. Durante séculos, foi disputada por fenícios, romanos, espanhóis, árabes e diversos povos do Mediterrâneo. Ou seja, possui uma personalidade um tanto diferente daquela Itália clássica que costumamos imaginar. A ideia era relaxar em um beach club antes de explorar a cidade propriamente dita. A faixa de areia tinha ótimas espreguiçadeiras, mas a Uma pausa à beira do mar para descobrir as águas cristalinas da Sardenha

VIAJEMAIS | 27 primavera europeia ainda estava um pouco fria para o meu gosto. Os mais corajosos entraram bravamente no mar, aliás muito bonito. Mergulhar eu mergulhei mesmo foi na parte histórica da cidade, para onde seguimos logo depois. Cagliari sobe pelas colinas em ruas estreitas, escadarias e construções antigas. Uma das áreas mais bonitas da cidade fica justamente ao redor do Bastione di Saint Remy, na Piazza Costituzione. Construído no final do século XIX sobre antigas muralhas espanholas, o bastião funciona como uma enorme varanda suspensa sobre a capital da Sardenha. Perdi a chance de visitar o antigo anfiteatro romano de Cagliari, mas fui salvo por Eduardo Roberto Araújo Simões, que me cedeu várias fotos e contou que ele foi escavado parcialmente na própria rocha há quase dois mil anos. O local já recebeu combates de gladiadores, execuções públicas e espetáculos diante de milhares de espectadores. No fim da tarde, voltei ao MSC Splendida com a sensação de ter descoberto um lugar do qual quase nada sabia poucas horas antes. Mais tarde, já na cabine, fechei novamente as cortinas enquanto o navio deixava lentamente a Sardenha para trás. Na manhã seguinte, outra cidade histórica surgiria diante da varanda — e, mais uma vez, eu teria a sensação de acordar dentro de uma nova história. O próximo capítulo seria Palermo. Fora dos roteiros mais óbvios da Europa, Cagliari merece ser descoberta Mesinhas ao ar livre, taças de vinho, conversas sem pressa e ruas históricas. Em Cagliari, a vida acontece em meio a uma mistura de culturas diferentes Há quase dois mil anos, gladiadores e espetáculos lotavam o anfiteatro romano de Cagliari foto: Eduardo Simões

28 | VIAJEMAIS | MSC SPLENDIDA Normandos, árabes, espanhóis e italianos ajudaram a moldar a Catedral de Palermo, um dos monumentos mais fascinantes da Sicília Em frente à Catedral de Monreale, a Piazza Vittorio Emanuele oferece uma bela vista das colinas e do entorno histórico da cidade Palermo tem história, muita história, talvez até mais do que outras cidades deste roteiro. Durante quase três mil anos, foi ocupada por fenícios, gregos, romanos, árabes, normandos, espanhóis e italianos. O resultado é uma cidade fascinante, onde igrejas cristãs convivem com elementos islâmicos, palácios normandos e praças barrocas. A primeira parada da nossa aniversariante foi a Catedral de Monreale, situada em uma colina nos arredores de Palermo. O local foi escolhido pelo rei normando Guilherme II, conhecido como Guilherme, o Bom, no século XII. Diz a tradição P ermita-me ser pessoal e usar o exemplo de uma amiga para mostrar como uma viagem de navio pode ser uma excelente opção para aniversários, recasamentos ou qualquer data especial. No caso, trata-se do aniversário de Fernanda Zebral, uma boa amiga da MSC. Pode acreditar: festejar o aniversário em uma cidade como Palermo é bem diferente e muito mais interessante. Só como curiosidade, Fernanda gosta tanto de comemorar aniversários em cruzeiros que este foi o quarto ano seguido em que celebrou a data a bordo. E eu tive a honra de cantar parabéns para ela sem faltar nenhuma vez, desde 2022, em diferentes lugares do mundo. Pois então vamos acompanhar a aniversariante em seu passeio comemorativo pela cidade siciliana de Palermo. PALERMO PARA CELEBRAR Entre mosaicos dourados, catedrais monumentais e fontes cercadas de histórias, Palermo revela as muitas civilizações que moldaram a Sicília Entre uma atração e outra, vale a pena sentar em um restaurante típico e experimentar a dolce vita italiana

VIAJEMAIS | 29 A Porta Nuova marca a entrada do centro histórico de Palermo. Reconstruída no século XVII, celebra a vitória do imperador Carlos V sobre os mouros e permanece como um dos símbolos da cidade

30 | VIAJEMAIS | MSC SPLENDIDA que ele decidiu construir ali sua residência e uma grande catedral porque o clima era mais agradável e fresco do que o encontrado na cidade baixa durante os meses mais quentes do verão siciliano. Do alto da colina, a vista sobre Palermo e o Mediterrâneo é espetacular. Ali está a magnífica Catedral de Santa Maria Nuova, considerada uma das maiores obras da arquitetura normanda da Europa. Se por fora ela já impressiona, é ao entrar que acontece o verdadeiro encantamento. Há um pequeno truque na iluminação da igreja, e isso divertiu muito Fernanda. O interior permanece em meia-luz, mas, ao inserir uma moeda de dois euros em um dispositivo eletrônico, toda a iluminação se acende temporariamente, revelando detalhes que a penumbra não permitia perceber. Imediatamente um “ohhhhhh” ecoa entre os visitantes. Bem que a Fer poderia imaginar que era para ela. De volta às ruas do centro histórico, a Via Vittorio Emanuele funciona como uma verdadeira espinha dorsal de Palermo. Caminhar por ela é percorrer uma espécie de linha do tempo. Vão surgindo pórticos, fachadas monumentais, igrejas, palácios e antigos portões urbanos que marcaram as entradas da cidade ao longo dos séculos. Apelidada de Praça da Vergonha pela nudez de suas esculturas, a Fontana Pretoria foi construída em Florença e transportada desmontada, em 644 peças, para Palermo Uma moeda de dois euros é suficiente para acender toda a iluminação da Catedral de Santa Maria Nuova e arrancar um inevitável “ohhhh” dos visitantes

VIAJEMAIS | 31 Gostei não propriamente do Palazzo Reale, antigo palácio dos reis normandos, mas de seus jardins. Durante o domínio espanhol, a Sicília tornou-se uma importante porta de entrada para plantas trazidas das Américas. O clima mediterrâneo mostrou-se ideal para a aclimatação de diversas espécies do Novo Mundo antes de sua difusão por outras regiões da Europa. Por isso há tantos cactos e outras suculentas nos jardins. Para quem gosta de paisagismo, é curioso perceber como essas plantas, originalmente americanas, tornaram-se tão integradas à paisagem siciliana que poucos imaginam sua origem do outro lado do Atlântico. Chegar à Catedral de Palermo teve um encanto adicional. Uma cantora lírica inundava a praça com a emocionante Ave Maria, de Schubert, criando o clima perfeito para entrar na igreja e observar elementos normandos, árabes, góticos, barrocos e neoclássicos convivendo numa combinação improvável. Ao longo dos séculos, cada povo que passou pela cidade deixou ali sua marca, transformando a catedral numa espécie de resumo arquitetônico da história da Sicília. A caminhada terminou na Piazza Pretoria, onde está a Fontana Pretoria. O monumento foi criado originalmente em Florença e, posteriormente, desmontado em 644 peças para ser transportado até Palermo, onde começou a ser instalado em 1574. Os moradores ficaram escandalizados com a quantidade de figuras nuas de ninfas, deuses e personagens mitológicos expostas em plena praça. O resultado foi imediato: o local ganhou o apelido de Piazza della Vergogna, a Praça da Vergonha. Séculos depois, a fonte continua sendo um dos símbolos mais fotografados da Sicília — prova de que alguns escândalos envelhecem muito bem. Irresistível. No final da tarde, quando retornei ao MSC Splendida, aí sim começaram as comemorações do aniversário da Fernanda. No restaurante, novos parabéns e um bolo especialmente preparado com o nome dela, trazido pelos garçons enquanto cantavam. Depois ainda teve cassino — ganhei 20 euros e um colega ganhou 60 — e balada. Acredite: comemorar aniversário em um navio é muito legal. Quando fechei as cortinas naquela noite, sabia que a próxima cidade seria um espetáculo: Valletta, em Malta. Celebrar a bordo é algo muito especial. Muitas felicidades, Fernanda Durante o Festino di Santa Rosalia, a Catedral de Palermo ganha ainda mais vida. Na minha visita, uma cantora lírica dava o tom da praça com a emocionante Ave Maria, de Schubert

32 | VIAJEMAIS Abrir as cortinas da cabine e dar de cara, a poucos metros, com aquelas muralhas que pareciam surgir diretamente do mar fez com que Malta entrasse imediatamente para a minha galeria das mais belas chegadas por navio. O Rio de Janeiro, pela natureza exuberante, continua em primeiro lugar, disparado. A beleza de Malta, porém, tem outra origem: a história. Demorei um pouco para entender isso, então preste atenção. A capital, Valletta, é minúscula. Tem apenas cerca de 0,8 km² e menos de 10 mil habitantes permanentes. Você entra e sai dela para as cidades vizinhas sem praticamente perceber, porque não existe uma separação clara. Valletta foi concebida desde o início como uma cidade militar planejada. Ao contrário de muitas cidades europeias que cresceram lentamente ao longo dos séculos, ela nasceu praticamente inteira sobre a prancheta dos engenheiros militares da época. Ruas retas, muralhas monumentais, bastiões, fortes, palácios, igrejas e arsenais foram organizados para transformá-la em uma das fortalezas mais sofisticadas do século XVI. Por isso, ao caminhar por Valletta, a sensação é diferente daquela encontrada em Roma, Paris ou Florença. A cidade inteira parece um enorme | MSC SPLENDIDA MALTA , UM EXAGERO DE ARTE E CULTURA Entre muralhas monumentais e portos históricos, Valletta revela a herança dos lendários Cavaleiros de São João Chegar a Malta a bordo do MSC Splendida é desembarcar em uma das fortalezas mais impressionantes do Mediterrâneo monumento histórico habitado. Quase cada edifício, escadaria ou praça está ligado à presença dos Cavaleiros de São João, também conhecidos como Cavaleiros Hospitalários, uma ordem religiosa e militar criada em Jerusalém durante as Cruzadas, por volta do século XI. Inicialmente dedicados ao atendimento de peregrinos e doentes, acabaram se transformando em uma poderosa força militar cristã. Após perderem seus territórios no Oriente Médio, estabeleceram-se em Rodes e, posteriormente, em Malta, onde governaram a ilha entre 1530 e 1798. Foram os responsáveis pela construção de Valletta e pelas impressionantes fortificações que ainda hoje dominam a paisagem maltesa. A Cruz de Malta, presente por toda a cidade, é justamente o símbolo da Ordem de São João. Valletta é, portanto, uma fortaleza renascentista transformada em capital. Uma cidade construída para resistir a cercos, mas que hoje encanta pela beleza de suas muralhas, seus palácios barrocos e sua relação permanente com o mar. Não por acaso, foi declarada Patrimônio Mundial pela UNESCO e preserva praticamente intacta sua estrutura renascentista.

VIAJEMAIS | 33 Roberto Araújo Construída pelos Cavaleiros de São João após o Grande Cerco de 1565, Valletta permanece como uma das fortalezas renascentistas mais bem preservadas do mundo A Cruz de Malta desenhada nos jardins do Upper Barrakka sintetiza o símbolo mais marcante da história da ilha Poucos lugares concentram tantos séculos de história, muralhas, fortalezas e obras de arte quanto Malta

34 | VIAJEMAIS | MSC SPLENDIDA Do barco, surgem as muralhas, fortalezas, portos naturais e as Três Cidades que ajudam a contar a história de Malta DE UM NAVIO PARA UM BARCO Para entender tudo isso, nada melhor do que um passeio de barco pelos dois grandes portos naturais que cercam Valletta: o Grand Harbour, considerado um dos melhores portos naturais do Mediterrâneo, e o Marsamxett Harbour, situado no lado oposto da cidade. Foi justamente no Grand Harbour que se desenrolaram episódios decisivos da história europeia, desde as batalhas contra os otomanos até as operações navais da Segunda Guerra Mundial. Durante o trajeto, é possível observar muralhas, fortalezas, arsenais, antigos estaleiros e as chamadas Three Cities — Vittoriosa, Senglea e Cospicua — que formam um dos conjuntos históricos mais importantes de Malta. O passeio teve um atrativo extra porque passou bem ao lado do MSC Splendida. Acostumado a vê-lo por dentro, foi divertido fazer selfies tendo aquele gigantão ao fundo. Para mim, houve ainda um bônus: imaginar que a capa da Viaje Mais poderia surgir daquela vista excepcional. Acho que já ficou evidente que, para qualquer direção que se olhe, há muito, mas muito mesmo o que ver. Mas existe um lugar que você não pode deixar de visitar: a Concatedral de São João. Por fora, ela parece relativamente austera. O interior, porém, está entre os mais impressionantes da Europa. Construída entre 1573 e 1578 para os Cavaleiros da Ordem de São João, ela é um verdadeiro triunfo do barroco. As paredes são revestidas por esculturas, mármores coloridos, douramentos e monumentos funerários dedicados aos cavaleiros. O piso, por si só, já é uma obraprima: cerca de quatrocentas lápides de mármore incrustadas formam um gigantesco mosaico funerário. Mas o item mais valioso está em uma capela lateral. Ali encontra-se A Decapitação de São João Batista, pintada por Caravaggio em 1608. É a maior obra produzida pelo artista e a única Em Malta, o MSC Splendida divide as águas com séculos de tradição naval e militar

VIAJEMAIS | 35 assinada por ele. O quadro retrata o momento exato da execução com um realismo quase brutal, utilizando os contrastes de luz e sombra que transformaram Caravaggio em um dos pintores mais influentes da história da arte. O melhor é que, depois de observar a obra, você pode assistir a uma verdadeira aula de arte numa sala ao lado, com explicações didáticas sobre composição, simbolismo, iluminação e técnicas de pintura. Gostei tanto que literalmente esqueci da vida. Fernanda precisou vir me chamar e, vergonha!, o grupo inteiro estava esperando por mim. Acontece, acontece... UM SOLDADINHO PARA MINHA COLEÇÃO A pressa tinha motivo. Era hora de seguir para o Grand Master’s Palace, ou Palácio do Grão-Mestre, que durante séculos serviu como residência oficial dos líderes da Ordem de São João. Mais tarde, tornou-se sede dos governadores britânicos e, posteriormente, da presidência de Malta. Um dos grandes destaques é a Armoury, considerada uma das mais importantes coleções de armas e armaduras da Europa. O acervo reúne armaduras completas, espadas, alabardas, mosquetes, canhões, pistolas e equipamentos militares utilizados pelos cavaleiros entre os séculos XVI e XVIII. Caminhar por aquelas galerias é compreender como Malta se transformou em uma fortaleza capaz de resistir aos maiores impérios da época. Não resisti e comprei uma estatueta de um Cavaleiro de São João, que agora guarda minha coleção de miniaturas de navios. O encerramento do dia foi com chave de ouro no Upper Barrakka Gardens, um agradável jardim instalado no ponto mais alto das muralhas de Valletta e que oferece a vista mais famosa da cidade. Dali é possível observar todo o Grand Harbour, os fortes históricos e as Three Cities espalhadas do outro lado da baía. O local foi criado no século XVII como espaço de descanso reservado aos cavaleiros italianos da Ordem de São João. Hoje é um dos pontos mais visitados de Malta. E tem uma enorme vantagem: um elevador que, por apenas um euro, leva o visitante até o nível do mar, praticamente ao lado de onde estava o MSC Splendida. Na manhã seguinte não haveria cidade. Apenas mar. Seria um dia inteiro de navegação e também o momento principal da 6ª Convenção Internacional de Vendas, na qual brilhou Ciro Bottini, encarregado de entusiasmar os agentes de viagem a convencer você a embarcar nos cruzeiros da MSC pelo Brasil e pelo mundo. Vai, Bottini! Foi com uma pequena ponta de tristeza que abri a cortina no dia seguinte e vi o navio chegando a Barcelona, o ponto final da viagem. Tristeza? Que nada. Bastava lembrar da pergunta da Lígia Costa em Cagliari: você está realmente aqui? Eu ainda teria um dia inteiro para aproveitar Barcelona antes de voltar ao Brasil. No Grand Master’s Palace, a Armoury reúne uma das mais importantes coleções de armas e armaduras da Europa, preservando o legado militar dos Cavaleiros de São João Bom conteúdo, troca de experiências e um clima leve marcaram a 6ª Convenção Internacional de Vendas da MSC Cruzeiros Brasil, com a participação de cerca de 700 agentes de viagem O item mais precioso da Concatedral de São João é A Decapitação de São João Batista, à esq., obra-prima de Caravaggio que, sozinha, já justifica a visita. E muito! Aperum consed mos doluptatecte millaut lit labor aut rectur, officit

36 | VIAJEMAIS Poucos lugares oferecem uma vista tão completa de Barcelona quanto o terraço do Museu Nacional d’Art de Catalunya | MSC SPLENDIDA Vou fazer mais uma daquelas confissões de jornalista: fiquei na maior dúvida se deveria falar de Barcelona no início ou no final desta reportagem. Isso porque a viagem começou e terminou por lá. Só que não dava para falar duas vezes da mesma cidade. Acabei optando por trazê-la para o encerramento e misturar os dois momentos. Esta é, aliás, mais uma vantagem dos cruzeiros. Por segurança, é sempre recomendável chegar antes — aviões podem atrasar — e partir depois para aproveitar o destino duas vezes. Barcelona certamente merece muito mais do que isso. Mas já dá para sentir o sabor da cidade fundada pelos romanos há mais de dois mil anos e que cresceu como um dos principais portos do Mediterrâneo. Ao longo dos séculos, desenvolveu uma identidade própria, marcada pela forte cultura catalã, pela criatividade artística e pelo espírito inovador. Claro que Antoni Gaudí está por toda parte. Nosso hotel na chegada era tão bem localizado que permitia ir caminhando até a Casa Batlló. Reformada entre 1904 e 1906 para a família BARCELONA: O INÍCIO E O FIM Gaudí, Picasso, Colombo e a atmosfera única da Catalunha ajudam a explicar por que Barcelona permanece entre as cidades mais fascinantes da Europa Batlló, a construção parece quase viva. A fachada ondulante lembra o movimento do mar, enquanto as varandas evocam máscaras ou crânios, dependendo da interpretação. O telhado colorido costuma ser associado ao dorso de um dragão, numa referência à lenda de São Jorge, padroeiro da Catalunha. Um pouco mais distante, mas ainda perfeitamente acessível a pé para quem gosta de caminhar pela cidade, estava a Basílica da Sagrada Família, a obra mais famosa de Antoni Gaudí e o principal símbolo de Barcelona. Sua A Casa Batlló, de Antoni Gaudí, parada obrigatória

VIAJEMAIS | 37 Com 172,5 metros de altura, a Sagrada Família tornou-se a igreja mais alta do mundo e o maior símbolo de Barcelona

38 | VIAJEMAIS construção começou em 1882 e continua em andamento mais de um século depois. Em 2026, a inauguração da Torre de Jesus Cristo elevou a Sagrada Família a 172,5 metros de altura, a mais alta de todas as igrejas católicas. A nova estrutura foi abençoada pelo papa Leão XIV durante uma missa realizada na basílica no centenário da morte de Antoni Gaudí. ONDE ESTARÁ PICASSO? Em todos os passeios desta viagem contamos com guias especializados. Isso ajuda muito, não apenas porque possuem acesso prioritário e evitam filas, mas também porque sabem exatamente o que merece mais atenção. Foi assim no Museu Nacional d’Art de Catalunya (MNAC). Instalado no imponente Palau Nacional, construído para a Exposição Internacional de 1929, o museu reúne uma das mais importantes coleções de arte da Espanha. Vale muito a pena observar o mobiliário criado por Antoni Gaudí. Mesmo em peças aparentemente simples, como cadeiras, bancos e elementos decorativos, aparece sua obsessão pelas formas orgânicas inspiradas na Natureza. As curvas substituem os ângulos retos e cada objeto parece ter sido moldado para acompanhar | MSC SPLENDIDA Em sintonia com seu nome, a Sagrada Família é rodeada por dois parques onde a criançada se diverte sob o olhar da obra-prima de Gaudí Um dos maiores mitos de Barcelona: a estátua de Cristóvão Colombo não aponta para a América, mas para o Mediterrâneo naturalmente o corpo humano. Foi engraçado que nossa guia queria muito mostrar a obra Mulher de Chapéu, do também espanhol Pablo Picasso, mas esqueceu onde ela estava e saiu correndo pelas galerias, murmurando: “Onde está Picasso? Onde está Picasso?”. Acabou encontrando a obra, para alegria do grupo. Talvez por estar em sintonia com temas muito presentes na sociedade atual, o museu escolheu a obra Lina Òdena, de J. Pons, como uma de suas imagens de divulgação. Pintada em 1937, ela é muito mais um símbolo político do que um

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